[Resenha] O Timbre

Goutyne
By Goutyne

Gostei da forma como o autor nos mostra diferentes pontos de vista, nem sempre sincronizados no tempo. Há momentos em que o tempo avança e retrocede para que possamos acompanhar os eventos, sem que isso comprometa o bom andamento da leitura. Aliás eu não conseguia parar de ler, pois você quer tanto chegar ao final que sabe que não pode parar. Pode parecer que será confuso esse começo com essa diferença de tempo, mas não tive problemas em acompanhar.

Enquanto acompanhamos a jornada de Citra e Rowan de volta à vida – você lembra que morrer neste universo é muito difícil, certo? – acompanhamos a jornada do ceifador Faraday em busca de um grande segredo da ceifa, um que pode mudar o mundo para sempre. E também vemos a Nimbo-Cúmulo, a impressionante inteligência artificial que governa o mundo e que se fechou para todos os seres humanos, exceto um, Greyson Tolliver.

Uma coisa a se dizer sobre essa trilogia toda é que cada livro consegue adicionar uma nova camada de complexidade ao enredo. Começamos com um mundo onde os seres humanos se tornaram imortais e não tratam mais a morte com os tabus e medos de antes em O Ceifador. Em A Nuvem nós temos um aprofundamento da inteligência artificial que a todos vê e como ela sabe tudo sobre todos os seres humanos, enquanto permanece fechada para os assuntos da Ceifa, que entra em uma espiral política onde a nova ordem quer tomar o lugar da velha.

Em O Timbre esses conceitos retornam e recebem um novo verniz, o do fundamentalismo religioso de uma seita que está se radicalizando ao tirar de contexto as falas de seu líder, enquanto a população entra em um conturbado período de incerteza por perder o contato com a Nimbo-Cúmulo. Isso sem contar que a Ceifa passa a ser governada por um bando de assassinos em série que sente prazer em matar. Ufa! É coisa demais acontecendo e ainda assim o autor conseguiu explicar tudo e dar um fim digno.

O problema de se empenhar para mudar o mundo era que você nunca era o único tentando fazer isso. Era um cabo de guerra interminável contra jogadores poderosos fazendo força – não apenas contra você, mas em todas as direções – de maneira que, seja lá o que você fizesse, mesmo se conseguisse avançar contra todos aqueles vetores, em algum momento você acabaria escorregando para um lado.

Adoro vários personagens desta saga, mas a Nimbo-Cúmulo é a minha preferida. Temos na ficção científica uma longa tradição de inteligências artificiais malignas, com vontade de exterminar os seres humanos por puro capricho. Enquanto no primeiro livro não tivemos bem uma visão de seu funcionamento nem de seus pensamentos, os livros seguintes expandem nossa visão e nos mostram uma IA muito mais preocupada com o destino da humanidade do que os próprios humanos, perdidos em seus caprichos e seus egos.

Tudo o que a Nimbo-Cúmulo faz é pensando no bem-estar da raça humana, mesmo que a gente relute em aceitar seus desígnios. E a forma como o autor colocou Goddard, o principal vilão, e a NC como a heroína, com todos os seus agentes no meio foi magistral. Goddard não é aquele vilão caricato, ele é verdadeiramente odioso. Cada vez que ele surge, você quer socar o infeliz. Ele defende que os ceifadores que tenham gosto por matar possam fazê-lo sem seguir as regras restritas da Ceifa. Quando ele assume o poder, seus maiores desejos poderão ser atendidos. E neste livro uma série de segredos de Goddard são conhecidos, o que o torna ainda mais detestável.

Muita coisa fez sentido com o final. As mortes de engenheiros e cientistas lá no primeiro livro foram satisfatoriamente justificadas e então de repente tudo faz sentido. Me peguei sorrindo com a resolução para a raça humana e para o dilema dos ceifadores. Acho que foi justo e coube dentro dos eventos dos outros livros, ainda que eu ache que não vá agradar a todos.

O livro tem alguns problemas de revisão e diagramação nele que espero tenham sido arrumados para uma próxima edição. A tradução foi de Guilherme Miranda e está ótima.

Em alguns casos, a morte levava ao esquecimento público. Em outros, podia transformar a pessoa em uma lenda.

Ficção e realidade

A trilogia do Ceifador é uma das mais inteligentes que já pude ler em muito tempo. Pense a respeito: se o ser humano se tornar imortal, como será feito o controle populacional? A Terra é finita e não tem recursos para todo mundo, indefinidamente. A maneira encontrada foi através dos ceifadores, que se encarregariam de matar pessoas, aleatoriamente, seguindo os padrões de mortalidade da era pré-mortal, a fim de manter um crescimento estável. Parece bizarro, cruel e genial ao mesmo tempo.

Nossa existência tem o sentido que tem hoje porque sabemos que ela é finita. Nós vamos morrer um dia, por mais que a longevidade humana tenha sido estendida com a revolução na medicina e a revolução verde. Mas se você é imortal não vai precisar se preocupar com uma série de coisas, já que você tem todo o tempo do mundo. Para que prestar vestibular assim que termina o ensino médio? Você pode fazer isso a qualquer momento. Pode fazer quantas faculdades quiser! Mas será que, mesmo com todo o tempo do mundo, ainda seríamos felizes?

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