[Resenha] O homem que buscava sua sombra: 5

Redação

Eu fiquei muito surpreso (e apreensivo) quando foi anunciado que o escritor sueco David Lagercrantz iria continuar Millennium, a série de livros criada por Stieg Larsson. Eu gostei de Millennium 4: A Garota na Teia de Aranha, levando em consideração que é uma sequência escrita por outro autor — a trama é interessante e me cativou bastante. O homem que buscava sua sombra é o novo volume da série e eu até gostei do livro, mesmo sendo facilmente o pior episódio até o momento. A trama de O homem que buscava sua sombra é até interessante, porém nem parece exatamente um Millennium por conta da participação tímida de Mikael Blomkvist e de Lisbeth Salander.

Durante a trama, Mikael, principalmente, investiga algumas informações enviadas por Lisbeth de dentro da prisão. Aos poucos, ele descobre detalhes de uma espécie de experimento feito com gêmeos recém nascidos. Já Lisbeth vai tentar proteger Faria Kazi, uma das detentas da prisão, pois ela é alvo de uma criminosa extremamente perigosa chamada Benito. Na prática, são várias tramas, exibidas de maneira intercalada: o passado de um empresário chamado Leo Mannheimer, os motivos que levaram Faria a ser presa, detalhes desse suposto programa e outras questões menores.

Gostei bastante de algumas dessas linhas de história. Fiquei genuinamente interessado na investigação sobre Leo Mannheimer, o que de fato aconteceu com ele na infância e como isso influenciou toda a vida dele. Também achei bem interessante a história de Faria Kazi e de como ela foi parar na prisão, e por qual motivo ela é alvo de Benito. Todas essas tramas são exibidas de maneira alternada, com detalhes sendo revelados aos poucos, por mais que de maneira um pouco previsível. Muitos temas são explorados, como questões éticas, corrupção de governantes, fundamentalismo religioso e a perseguição de mulheres — esses temas tornam a história crível, como se ela pudesse acontecer em qualquer lugar.

Mikael, dessa vez, é o investigador: o repórter procura informações e conversa com várias pessoas, principalmente sobre Leo Mannheimer. Sendo assim, nos trechos em que o acompanhamos, vemos mais ele entrevistando pessoas ou refletindo sobre as informações obtidas — não há desenvolvimento do personagem. Já Lisbeth parece ainda mais desfigurada nessa história: é obcecada por física quântica (não sei de onde Lagercrantz tirou isso) e a garota está ainda mais poderosa, sendo capaz de ferir gravemente pessoas bem mais fortes fisicamente do que ela. Além disso, ela tem resistência acima da média e consegue correr e atacar oponentes mesmo sofrendo com ferimentos graves. O passado da garota é explorado neste livro e sabemos o motivo dela ter tatuado um dragão nas costas, mas é tão superficial e simples que não consegui me importar. Uma das coisas mais legais da série é a sinergia entre a dupla, mas isso não acontece aqui — os dois personagens mal chegam a se encontrar durante a trama.

Eu me diverti com esse livro, porém eu não senti que ele é um novo episódio de fato da série Millennium. O motivo disso é a narrativa focada em outros personagens e não em Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander. Eles aparecem tão pouco e têm a personalidade mal explorada que fiquei com a sensação de que, na verdade, eles eram simples coadjuvantes na história. Há também alguns problemas na escrita em si: ritmo irregular, tensão inexistente, personagens mal desenvolvidos (e alguns até beirando o ridículo) e situações forçadas. Em entrevista, Lagercrantz afirmou “o livro ainda tinha de estar no universo de Larsson, mas me atrevi a escrever o thriller que eu realmente queria escrever” e, de fato, a sensação é que ele escreveu um romance policial e incluiu a dupla de protagonistas de qualquer jeito só para fazer parte da franquia Millennium.

O homem que buscava sua sombra é um bom romance policial dentro de suas limitações. Gostei muito das tramas e assuntos abordados, pois são instigantes, complexos e interessantes. Já como livro da série Millennium, é um episódio fraco e desnecessário por subutilizar os protagonistas Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander. Particularmente, acredito que já chegou a hora de finalizar essa nova série — porém isso ainda não vai acontecer, pois ao menos mais um livro será produzido. Sendo assim, para aproveitar O homem que buscava sua sombra, é bom não criar muita expectativa.

Blomkvist havia praguejado e se revoltado durante todo o processo e julgamento, mas quando percebeu que a própria Lisbeth parecia não se importar, tentou ver a situação através dos olhos dela. Para Lisbeth, ir para a prisão não era nada de mais. Se pudesse continuar com seus exercícios físicos e estudos de física quântica, tanto fazia que fosse na prisão ou em qualquer outro lugar. Além do mais, poderia ser uma experiência nova, um novo aprendizado. Nesse sentido, Lisbeth Salander era um tanto estranha. Aceitava tudo o que acontecia em sua vida, não importava a situação, e muitas vezes simplesmente tinha aberto um sorriso quando ele demonstrou algum tipo de preocupação, como quando a transferiram para Flodberga.

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