[Resenha] A garota na teia de aranha: 4

Redação

A trilogia Millennium é uma das minhas séries de livros favoritas — lembro até hoje como li loucamente rápido “A Rainha do Castelo de Ar”, o terceiro volume da trilogia. Infelizmente o autor morreu muito antes da série se tornar um sucesso, o que é uma pena: ele pretendia escrever mais volumes da franquia. Foi com muita surpresa que eu soube que seria lançado um quarto livro, intitulado A Garota na Teia de Aranha aqui no Brasil. Escrito pelo escritor e jornalista sueco David Lagercrantz, o lançamento foi marcado por polêmicas e dúvidas: será que o autor conseguiria fazer um bom trabalho com o legado de Stieg Larsson?

A hacker Lisbeth Salander e o jornalista Mikael Blomkvist precisam juntar forças para enfrentar uma nova e terrível ameaça. É tarde da noite, e Blomkvist recebe o telefonema de uma fonte confiável, dizendo que tem informações vitais aos Estados Unidos. A fonte está em contato com uma jovem e brilhante hacker – parecida com alguém que ele conhece. Blomkvist, que precisa de um furo para a revista Millennium, pede ajuda a Lisbeth. Ela, porém, tem objetivos próprios.

O que eu mais gostei na série Millenium foram seus personagens interessantes (especialmente os protagonistas Mikael e Lisbeth) e bem construídos, e a trama repleta de mistério e complexidade. Em A Garota na Teia de Aranha, parte dessas características está presente, mas, claro, não é a mesma coisa.

A trama em si começa bem simples e vai tomando proporções muito maiores. Tudo começa com um pesquisador que corre risco de vida que acaba decidindo contar tudo para o jornalista Blomkvist, que nem imagina que existe uma grande e perigosa conspiração por trás disso. Millennium 4 tem uma trama e narrativa bem ágeis. Lembro-me bem que eu achava o texto de Larsson um pouco prolixo, Lagercrantz praticamente eliminou isso.

Pouco a pouco somos apresentados aos novos personagens e e detalhes da história, sendo que a narrativa tem foco alternado: em um momento estamos acompanhando Mikael Blomkvist e seus problemas na revista Millennium; já logo em seguida vemos um especialista de segurança na NSA; num terceiro momento o foco é um cientista brilhante, mas com problemas familiares. Por conta disso, a leitura flui muito fácil. O ritmo é eletrizante e a leitura é repleta de ganchos e cenas bem intensas. Mesmo com um novo autor e algumas características diferentes de narrativa, Millennium 4 parece sim uma autêntica continuação.

O principal destaque, e o ponto que eu mais gostei no livro, são seus protagonistas. Mikael Blomkvist ainda continua sendo aquele jornalista que faz de tudo para denunciar as injustiças sociais e em Millennium 4 ele tem que enfrentar problemas gerados pela era digital: as pessoas o consideram irrelevante (principalmente os mais jovens) e a revista Millennium está em crise financeira. Ele é o típico “herói justo”, por mais que em alguns momentos ele ignore a lei para alcançar seus objetivos — essa dualidade é muito interessante.

Já Lisbeth Salander continua tendo personalidade forte e age como bem entende, aplicando sua própria justiça — pouco se importando para as consequências de seus atos. É muito difícil não gostar dela e em Millennium 4 ela continua incrível. Gostei também da relação entre os dois: um provoca o outro e agem em conjunto, mesmo sem mal se encontrarem pessoalmente durante a história. O autor mudou levemente algumas características dos protagonistas e não achei de todo ruim — salvo Lisbeth que, em alguns momentos, é praticamente uma super heroína.

“Mikael Blomkvist era uma pessoa que andava de mãos dadas com a lei. Em muitos sentidos, um cidadão-modelo, e se havia alguém que conseguia arrastá-lo para o território do proibido, esse alguém era Lisbeth Salander. Mikael preferia cair em descrédito a traí-la, por isso ele continuava repetindo à polícia: “Reservo-me o direito de proteger minhas fontes”, embora sem dúvida ele estivesse aborrecido com isso e ponderando as consequências.” (Pág. 290)

Eu até gostei da ideia central da história, mas o autor não soube trabalhar muito bem isso: existem situações questionáveis e viradas inesperadas que parecem forçadas — algumas coisas são tão absurdas que lembram mais uma fanfic do que um romance de um escritor de renome. Subtramas, como a questão da relevância da Millennium na era das redes sociais, são deixadas de lado — acredito que elas poderiam deixar a narrativa mais rica. O mistério central nem é tão misterioso assim, já que o autor praticamente deixa tudo explícito rapidamente — gostava mais do estilo sutil de Larsson, no qual o leitor ia montando lentamente o quebra-cabeça junto com os personagens. Por fim, não gostei muito da caracterização de alguns coadjuvantes: muitos são mal desenvolvidos (Larsson aprofundava bem esse tipo de personagem) e outros têm características risíveis, quase caricatas.

A Garota na Teia de Aranha é um ótimo livro e uma boa continuação da série Millenium. É muito bom poder acompanhar novamente personagens incríveis como Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander em uma história cheia de mistérios, conspirações e ação — a leitura foi tão boa que terminei o livro em pouquíssimos dias. David Lagercrantz fez um ótimo trabalho e gostei da narrativa mais ágil. Obviamente, ele não é Stieg Larsson e escorrega em alguns pontos — de qualquer maneira, gostei muito do resultado e já estou no aguardo das possíveis continuações.

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