[Resenha] A garota marcada para morrer: 6

Redação

Fui pego de surpresa quando soube que A Garota Marcada Para Morrer, o sexto livro da série Millennium, já tinha sido lançado. A franquia foi criada pelo sueco Stieg Larsson, que infelizmente faleceu após a publicação do terceiro volume. Após isso, a série teve continuidade pelas mãos de David Lagercrantz, que produziu dois livros razoáveis (A Garota na Teia de Aranha e O homem que buscava sua sombra), porém nem de longe tão bons quanto a trilogia inicial. O sexto e último volume da franquia repete a fórmula dos dois anteriores em uma leitura agradável que eu apreciei, mas que não oferece a mesma qualidade dos originais.

Um homem é encontrado morto num parque no centro de Estocolmo. Parece se tratar apenas da morte trágica de um sem-teto, mas, apesar de ter características muito distintivas, ninguém é capaz de identificá-lo. A médica legista Fredrika Nyman suspeita que haja algo de errado e contacta Mikael Blomkvist. O jornalista se interessa pelo caso, ainda que com relutância. O mendigo foi ouvido muitas vezes murmurando coisas sobre Johannes Forsell, o ministro da defesa da Suécia. Haveria uma conexão genuína entre eles? Blomkvist precisa da ajuda de Lisbeth Salander. Mas depois do funeral de Holer Palmgren, ela saiu do país sem deixar qualquer rastro. O paradeiro que ninguém conhece é Moscou, onde ela está para acertar contas com sua irmã Camilla de uma vez por todas.

Em A Garota Marcada Para Morrer, acompanhamos novamente a dupla Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander. O jornalista Mikael começa a investigar a morte de um mendigo que, em um primeiro momento, se revela inofensiva, mas há muito mais por trás dos fatos. Já a hacker Lisbeth está monitorando sua irmã Camilla com o objetivo de acabar com ela de uma vez por todas. Naturalmente, aos poucos as várias tramas se relacionam em uma história mais complexa.

O ritmo ágil é a característica que mais gostei em Millennium 6. A trama avança rápido por meio de diálogos simples, cenas de ação e pequenos trechos de narrativa intercalados. O autor conseguiu fazer os cortes nos momentos certos e continuamente fiquei instigado em continuar a leitura. As várias histórias em si são interessantes, como o mistério por trás da identidade do mendigo morto (e os motivos de sua morte), as maquinações de Camilla e a complexa investigação conjunta de Mikael e Lisbeth. O autor traz ar de contemporaneidade ao livro ao abordar assuntos recentes, como campanhas de ódio na internet e abuso, por mais que de maneira superficial.

A dupla de protagonistas é a alma de Millennium, e eles estão melhor caracterizados neste livro. Mikael continua sendo um jornalista ávido por buscar a verdade, mesmo que isso coloque sua vida em risco. Já Lisbeth apresenta a personalidade exótica de sempre com sua frieza e calculismo — há, inclusive, partes que exploram suas fragilidades, o que traz um contraste interessante com sua atitude sempre durona. Aparecem também outros vários personagens secundários que enriquecem a trama, como uma médica legista, uma repórter que sofre abusos do marido e um ministro que guarda segredos sombrios.

Infelizmente o autor ainda insiste em algumas descaracterizações dos dois livros anteriores. Mikael, às vezes, vira um simples mulherengo que mal sabe escrever um texto e não tem faro algum para o perigo (o que não acontecia na trilogia original). Já Lisbeth mais uma vez se revela extremamente poderosa fisicamente, além de ser uma hacker capaz de feitos surreais — ela é capaz até mesmo de analisar cadeias de DNA de maneira melhor que especialistas. A relação entre os dois também é fracamente explorada, tanto é que eles se encontram somente duas vezes durante toda a trama. A sensação que eu tive foi que os dois não evoluíram como personagens e ficaram presos a simples estereótipos anteriormente definidos.

A maneira como a trama é desenvolvida é um dos maiores problemas de Millennium 6. No começo parece que há um grande mistério para Mikael desvendar, porém, no fim das contas, é algo muito simples, quase banal. A suposta complexidade aparece com os vários cortes na história, mas é só uma maneira complicada de contar uma história. Eu fiquei intrigado e até gostei do foco da investigação, porém não apreciei essa tentativa de tornar importante algo direto.

Outra questão é a vingança de Lisbeth e seu peso na história. Nessa linha de história praticamente nada acontece, e ela não combina direito com a parte da investigação, parecem dois focos distintos colados de qualquer maneira. A conclusão da trama é anticlimática com um confrontamento fraco entre Lisbeth e Camilla, além de um desfecho extremamente preguiçoso. Faltou coesão e propósito entre as linhas de história, tema principal e legado da série — ao contrário da trilogia original, que fez tudo isso com maestria.

A Garota Marcada Para Morrer é um bom romance policial com seus mistérios instigantes e personagens interessantes. Mesmo com os vários problemas, eu apreciei acompanhar a investigação de Mikael e a jornada por vingança de Lisbeth. No fim, foi uma leitura divertida, no entanto, como conclusão da série Millennium, este volume deixa a desejar e não consegue respeitar o legado de Stieg Larsson (assim como os volumes 4 e 5).

“Ela tinha decidido atacar primeiro, em vez de ficar à espera como uma presa, como uma caça encurralada. Por esse motivo estava em Moscou, e também por isso mandara instalar câmeras na Fiskargatan, em Estocolmo. O preço, porém, estava sendo mais alto do que tinha imaginado. Não somente porque seu passado se reabria diante dela, mantendo-a acordada à noite, como também porque o inimigo se escondia atrás de cortinas de fumaça e criptografias indecifráveis, e ela ficava horas apagando seus rastros. Vivia como uma prisioneira, como uma fugitiva, e nada do que procurava lhe chegava com facilidade. Só agora, passado mais de um mês de trabalho, ela começava a se aproximar de seu objetivo. Mas não era fácil ter certeza, e às vezes ela se perguntava se o inimigo não estaria um passo à frente.”

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