[Resenha] A caçadora de dragões (Iskari Livro 1)

Redação

Se você gosta de ficção com personagens femininas guerreiras como Mulher-Maravilha, Mulan, Xena, Éowyn, Rey ou Arya Stark certamente vai se interessar pela saga Iskari, que começa com o volume A Caçadora de Dragões (The Last Namsara, 2017), de Kristen Ciccarelli, publicado no Brasil em 2018 pela Editora Seguinte, o selo jovem do Grupo Companhia das Letras. Outro fator que atrai são os dragões, seres místicos presentes em diversos folclores, mas que recentemente se consolidaram na cultura pop através de Game of Thrones, Como Treinar Seu Dragão e O Hobbit.

A Caçadora de Dragões é uma fantasia feminista Young Adult, onde humanos guerreiam entre si e também com dragões. As feras poderosas são atraídas por antigas histórias proibidas. É desta forma secreta que Asha, a protagonista, princesa de Firgaard, as caça. No entanto, as histórias fortalecem os dragões, permitindo, por exemplo, que cuspam fogo, transformando a caçada feroz em um ato mortal. Asha aprendeu as histórias com a mãe, pois quando criança sofria com pesadelos que somente eram sanados com os contos. O problema foi que aprendê-los atraiu Kozu, o primeiro e mais perigoso dragão, que queimou Firgaard e assassinou milhares de pessoas, tanto draksors, os cidadãos de Firgaard, como skrals, os escravos. Mais que uma enorme cicatriz, Asha carrega a culpa em seu coração. E, logicamente, Asha não é querida pelo povo. As pessoas a temem. E também a odeiam.

Agora, aos dezessete anos, Asha, intitulada iskari, já caçou centenas de dragões, muitas vezes utilizando o método proibido. Entretanto, sua preocupação vai além dos monstros místicos. O rei de Firgaard, o Rei-Dragão e pai de Asha, a prometeu em casamento à Jarek, general que comanda as tropas de soldats do reino. A única forma de Asha se livrar da união é levar a cabeça de Kozu para o pai antes da cerimônia. Com isso, talvez ela encontre a redenção perante o povo. Ela precisa se redimir (e se vingar?) e escapar do casamento forçado, mas são pouquíssimos dias.

Esta é a premissa de A Caçadora de Dragões, com narrativa em terceira pessoa. Os capítulos sob o ponto de vista da protagonista se revezam em vários momentos com pequenos contos que mesclam folclore e história do universo criado pela autora. Estas breves interrupções são incríveis, pois se ligam aos acontecimentos da trama, seja do passado do reino e da família de Asha, ou das histórias que Asha aprendeu com a mãe. Adorei todas as histórias, bem curtinhas mesmo, não interferem no ritmo da trama principal.

Outro destaque muito interessante é que Asha já é a caçadora de dragões. Não é o tipo de história em que a protagonista começa sem experiência e, aos poucos, vai descobrindo suas habilidades ou poderes, para então seguir algo semelhante a uma Jornada do Herói. Ela já é badass, destemida, perigosa e sabe melhor que ninguém como caçar um dragão.
Ela é uma anti-heroína, pois não deseja se tornar uma princesa amada; quer se redimir pelas milhares de vida perdidas no ataque de Kozu provocado por ela, por questão de consciência, não por popularidade. Asha não é uma pessoa simpática nem quer ficar agradando a corte ou seu pretendente. Ela é extremamente determinada, prática e consciente de suas habilidades, podendo ser vista como arrogante. Ela é uma jovem mulher decidida, que sabe como é boa no que faz, e que não deixa nada para ser resolvido depois. Nem sempre estas características são bem-vistas em personagens femininas, mas eu gosto. A protagonista é o maior destaque deste livro!

Temida e odiada, Asha convive apenas com o irmão e herdeiro do trono, Dax, e a prima Safire, filha de seu tio com uma escrava, personagens interessantes. Ele busca uma trégua com os nativos, povo que está em guerra com seu pai, e através dele é introduzida a personagem Roa, uma nativa com um falcão branco. Já Safire, metade draksor e metade skral, excelente combatente corpo-a-corpo, é tratada como uma escrava, mas Asha a enxerga como uma amiga. Outras personagens são o noivo de Asha, Jarek, aquele para ser odiado, e seu escravo, Torwin, para amar! Confesso que minha curiosidade se voltou boa parte para o Rei-Dragão. Não conseguia definir se ele era herói ou vilão. Ah, e os dragões, claro! Á princípio, um item que desgostei foi a forma como a protagonista lida e enxerga os escravos, apesar dela ter a prima, filha de escrava, como melhor amiga (ou o mais próximo de uma). Entendo perfeitamente que foi o modo como foi criada, que é cultural, porém me incomodou bastante. Foi um alívio perceber que era um dos principais desenvolvimentos da protagonista. Quando percebi que além do arco de redenção, Asha precisava mudar sua forma de ver os escravos, me senti aliviada verdadeiramente. No fim, o livro critica firmemente a escravidão.

A leitura começou muito instigante, mas em seguida o desenvolvimento me pareceu lento, para então voltar a fluir após a metade do livro. Gostei do final, do romance e das cenas de ação; adorei a protagonista, a mitologia e os dragões, mas mesmo assim, parece que faltou alguma coisa. Esperei por um desenvolvimento melhor para Safire e Dax, por exemplo, assim como esperei que Jarek fugisse do estereótipo inicial em algum momento e me surpreendesse.
Senti falta de um mapa, pois sempre prefiro ter um à mão quando se trata de terras fictícias fantásticas onde há guerra entre povos ou jornadas. Também fiquei carente em relação aos povos envolvidos, ansiando por saber mais dos nativos e todos os demais escravos. Acredito que é um item a ser desenvolvido talvez no próximo volume da série.

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