sexta-feira, 1 dezembro, 2023

Amazônia: Uma Bomba-Relógio para Doenças Emergentes e o Desafio da Vigilância Ambiental

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Lar da maior biodiversidade do planeta, a Amazônia também é uma bomba-relógio para o surgimento ou ressurgimento de doenças de potencial pandêmico. Isso ocorre devido à degradação ambiental e à alteração nas paisagens, fatores agravados em períodos de seca extrema, como o que atinge a região agora.

Na Amazônia, a pavimentação da BR-319, que liga Porto Velho a Manaus, é uma fonte significativa de preocupação. Estimativas conservadoras indicam que o desmatamento ao redor da estrada pode quadruplicar nos próximos 25 anos, principalmente devido à especulação fundiária. Isso é agravado pelo fato de 90% da zona diretamente afetada consistir em áreas de floresta intocada.

O desmatamento não é uma situação estática, mas dinâmica e imprevisível, resultando na fragmentação das florestas, aumentando o risco de incêndios e reduzindo a biodiversidade das áreas afetadas. A associação entre a ação humana na Amazônia, como a pavimentação da BR-319 e a exploração ilegal de áreas para mineração, as mudanças climáticas, migrações desordenadas e desenvolvimento social precário cria um ambiente propício para o surgimento e ressurgimento de doenças.

Doenças conhecidas…

Este processo pode ocorrer de diferentes formas. A degradação de áreas conservadas, o desvio de rios e a seca extrema, por exemplo, levam à escassez de água e alimentos, representando uma ameaça direta de desnutrição. Isso afeta a saúde das populações locais, tornando-as mais vulneráveis a doenças já conhecidas.

A falta de água limpa e a má higiene em condições de estiagem também aumentam o risco de doenças transmitidas por água e alimentos contaminados, como cólera e hepatite, e viroses que causam diarreias graves, como as rotaviroses. A incidência de doenças associadas à má preservação de peixes, como a rabdomiólise (doença da urina preta), que não é infecciosa, também aumenta durante secas extremas.

O aquecimento global é um fator crítico neste processo, permitindo a expansão da presença de mosquitos transmissores de doenças como malária e dengue. Um aumento na temperatura média do planeta pode possibilitar a colonização de áreas anteriormente inacessíveis a esses vetores. Em regiões onde estão presentes, a degradação do ambiente pode aumentar ou diminuir os períodos de chuva, favorecendo alagamentos e manutenção de água empoçada, facilitando sua proliferação.

Não à toa, doenças transmitidas por vetores são casos clássicos de surtos em função de desequilíbrio ambiental. A recente crise humanitária dos Yanomami, causada pela mineração ilegal, grilagem e falta de acesso a serviços de saúde, é um exemplo. Além da contaminação das águas e do ambiente por mercúrio, a mineração criou um ambiente favorável para a reprodução e disseminação de mosquitos Anopheles, transmissores da malária.

Isso ocorre porque a escavação para extração de ouro e minerais gera poças d’água que funcionam como locais artificiais de reprodução. A atividade de mineração também aumenta a população humana nessas regiões remotas, facilitando a disseminação da malária. Em termos numéricos, enquanto entre 2008-2012 cerca de 20% dos casos de malária ocorreram em território Yanomami, entre 2018-2022 quase 50% dos casos afetaram essa população.

E novas doenças

Mas, sem dúvida, as doenças infecciosas, especialmente as zoonóticas (transmitidas de animais para pessoas), são as mais preocupantes. Enquanto alguns patógenos (agentes causadores de doenças, como vírus e bactérias) são capazes de infectar uma ou poucas espécies de hospedeiros, outros são mais generalistas e podem infectar uma grande diversidade de animais.

Esse tipo de “salto” de um hospedeiro a outro ocorre constantemente entre animais em seu habitat natural, por exemplo, de morcegos para primatas não humanos, pequenos roedores e outros mamíferos. Costuma haver, entretanto, um equilíbrio na circulação desses agentes.

Mas quando há a destruição de habitats, seja por qualquer razão (causada pela Humanidade ou não), as espécies locais migram para áreas mais conservadas em busca de alimentos e abrigo. Isso pode ocorrer em áreas próximas de assentamentos humanos, favorecendo o contato entre animais selvagens e pessoas.

Impossível prever, mas possível vigiar

Infelizmente, a prevenção de zoonoses não é uma tarefa fácil. Embora saibamos que estamos próximos dos limites de uma crise sem retorno, não há um método eficaz que possa prever como, de onde ou qual será a próxima doença emergente.

Mas é possível vigiar. Para isso, monitoramos a circulação de vírus e bactérias resistentes em amostras de água, de animais e vetores, e também humanas. Animais “sentinela”, como morcegos, roedores e primatas, são submetidos a tecnologias de sequenciamento de nova geração para detecção precoce dos agentes circulantes que possam representar uma ameaça à saúde humana.

E, ainda assim, é pouco. Para ser efetiva, a vigilância deve ser constante e abranger esferas locais e nacionais. Embora o Brasil tenha capacidade e infraestrutura técnica básica para isso, poucas ações são de fato aplicadas. Além da vigilância, precisamos de investimentos em métodos de diagnóstico mais rápidos e precisos, que possam fazer a diferença e ajudar a conter, se não a emergência, a propagação de uma eventual nova doença com potencial pandêmico como a COVID-19.

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